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Estudos
Pr. Jayro M. Cáceres
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01/01/2011

Uma boa briga?Imprimir

Alguém já disse que quando um casal namora, ela fala e ele ouve. No noivado, ele fala e ela ouve. Já no casamento, ambos falam e o vizinho ouve. Há algo de verdadeiro nesta declaração bem humorada. De modo geral, noivos e noivas esperam que o seu casamento seja harmonioso, estável, bem sucedido. Porém, há uma condição para que o casamento seja harmonioso, estável, bem sucedido. Ele precisa estar alicerçado firmemente sobre os princípios das Escrituras.

Depois de aconselhar inúmeros casais antes do casamento e de acompanhar a vida de muitos deles por alguns anos, tenho percebido que existe, quase que invariavelmente, muita concordância dos noivos com o que é exposto e ensinando antes, mas que não é seguido da respectiva observação cuidadosa depois do casamento. Alguns relacionamentos conjugais tem falido simplesmente porque um ou ambos tem decidido insistir naquilo que desejam, pensam, fazem ou entendem. Isto fica muito mais visível, mais evidente quando o casal está diante de um conflito. Conflitos se constituem num terreno muito pantanoso para a maioria dos casais. A maneira como lidam com os conflitos reflete muito do coração de ambos, do que eles tem alimentado e se estão ou não dispostos a se submeterem às orientações de Deus através das Escrituras.

Modelos comuns, porém não bíblicos de lidar com os conflitos

Depois que todos os padrinhos já viram o vídeo da cerimônia e todas as fotos, e depois que todos eles já jantaram com o novo casal, há uma tendência natural a que se estabeleça uma rotina. Então, começa um processo novo para eles. Eles vão viver numa intimidade tão grande como nunca antes o fizeram. Os espaços vão sendo tomados, os interesses vão sendo melhor conhecidos, as reações vão sendo mais claramente percebidas, e alguns “calores” começam a ser sentidos. Diante de uma determinada situação, já suficientemente quente, ele defende as suas posições e ela defende as posições dela. Um radicaliza de lá e o outro radicaliza de cá. Ambos insistem em seus pontos de vista, argumentos, posições e deles não abrem mão. O que se estabelece é um “braço de ferro”. O propósito de alguns maridos e esposas é ganhar, não importa o preço que custe. Ora ganha um, ora ganha o outro, mas o relacionamento conjugal irá sempre perder.

Uma outra maneira de se lidar inadequadamente com os conflitos é negociar. Um cede hoje sabendo que o outro ficou com a dívida para ceder amanhã. Há então, uma situação não apropriada de um ceder não por um amor aperfeiçoado, mas por saber que o próximo a ceder é o outro. Eles tem uma conta de egoísmo e interesses próprios aberta entre eles. Em cada conflito se debita a conta de um. Quando este processo se exaure, um ou outro tende a dizer: “Mas só eu é que tenho que ceder? Você nunca”? Os problemas serão sempre maiores que os benefícios, além deste não ser o modelo bíblico de resolver conflitos.

Uma outra maneira “muuuuuiiito comum” é um dos dois simplesmente desistir de resolver os conflitos, pelas dificuldades que vai ter. Vai ter que expor seus argumentos e ouvir os do cônjuge, vai ter que tomar decisões, vai ter que ceder, etc. . Ele ou ela prefere o silêncio não sadio, aquele que fica remoendo. E, quando perguntado, ele ou ela responde: “Para evitar problemas, eu fico quieto”. O problema é que isto não somente não resolve o conflito, como certamente criará outros ainda maiores. Muita amargura e tristeza decorre deste modelo.

Um discernimento necessário

Quando uma situação de tensão se estabelece, é preciso entender que é possível lidar com ela de modo bíblico, maduro. Quando um casal se aproxima de mim e diz: “Pastor, nós nos entendemos muito bem. Sabe, nós nunca brigamos”. A minha reação quando ouço isto é pensar no meu íntimo: “Certamente este casal não está desenvolvendo um relacionamento maduro”. Não que seja necessário haver “brigas” para que haja um relacionamento maduro, mas é preciso saber como lidar com as diferenças, com os impasses, com as divergências para se desenvolver um relacionamento maduro, e que sobretudo, agrade ao Senhor. Esta deveria ser uma pergunta que ambos deveriam fazer quando estão num debate: “Eu quero ganhar os argumentos para que prevaleça a minha posição, ou eu estou procurando saber qual a perspectiva de Deus sobre o assunto para procurar agradá-Lo, me submetendo assim à Sua direção e orientação”?

Tirando proveito dos conflitos

Considerando que os impasses, as diferenças e as divergências fazem parte de um relacionamento maduro, é preciso, então, descobrir qual a maneira bíblica de lidar com eles. É minha compreensão que Deus estabeleceu nas Escrituras um alvo para os seus filhos. Somos chamados a “promover a glória de Deus” em nosso viver (I Co.10.31; Ef.1.12), e isto se dá através de um processo. Um processo contínuo de nos assemelharmos em tudo e em todas as coisas à imagem do nosso Senhor Jesus Cristo (Rm.8.29; Ef.4.13). É assim que promovemos a glória de Deus em nosso viver, isto é, vivendo cada dia sendo transformados à imagem do nosso Senhor Jesus. A pergunta óbvia então é: “Como é que o Senhor ensina, através das Escrituras, a lidarmos com os impasses no casamento, com as tensões, com as diferenças, com as divergências, com os conflitos”?

Havia na igreja de Filipos duas mulheres que estavam enfrentando algum tipo de conflito. Eram Evódia e Síntique. Paulo as encoraja a que “pensem concordemente no Senhor” (Fp.4.2). A permanência da situação de tensão que envolvia essas duas mulheres era prejudicial para elas e para a igreja. Ela precisava cessar. A orientação de Paulo é para que ambas descobrissem a perspectiva de Deus sobre aquela situação e, por conseguinte, que se submetessem, ambas, unanimes e prontamente ao Senhor. O mesmo se aplica ao casamento. Neste sentido, creio que podemos formular um princípio para resolver conflitos no lar: Concentre a sua atenção no problema e nas soluções de Deus. Muito facilmente tendemos a nos concentrar na pessoa e não no problema, nem tão pouco nas soluções para ele. Este é um erro fatal para o relacionamento conjugal.

Quando marido e mulher decidem não permitir que gastem tempo se debatendo um contra o outro, eles poderão se concentrar melhor em alguns aspectos da solução, como por exemplo, vão gastar energia para “identificar o problema”. Sempre que houver uma tensão, uma divergência que leva a algum conflito ou que tem o potencial para o conflito, a pergunta a se fazer é: “Qual é o problema”? Tentar entender com o que se está tendo dificuldade é o começo da solução. Se há forte tensão em como gastar o dinheiro, o problema poderia ser as prioridades do casal? Há necessidade de se rever as prioridades financeiras? Se um marido é uma pessoa muito ausente, o problema talvez seja as prioridades dele, em como ele gasta o seu tempo. Há necessidade de se rever o horário da família? O que a Bíblia diz a respeito? Neste ponto, o que se está fazendo é debruçar-se sobre “as perspectivas e soluções de Deus”. Deixe-me mencionar um exemplo do que estou querendo dizer. Um casal tem tido alguns problemas bem importantes com o seu único filho. Ele precisou estar numa escola desde muito cedo porque ambos trabalham. Ela, a esposa, trabalha durante as noites num hospital. Isto trouxe uma série de conflitos para o casal, porque o marido trabalha normalmente numa empresa durante o dia. Não somente eles tem grandes limitações em estarem juntos para compartilhar e cultivar intimidade, como eles não estavam seguros sobre o que fazer com o filho e os problemas que ele apresentava. Eles procuraram aconselhamento quando os conflitos já eram bastante acentuados. Depois de algumas considerações a respeito, ambos puderam perceber bem qual era o problema. As prioridades deles precisavam ser revistas. Eles precisavam estabelecer o que era importante e o que era apenas desejável. Eles estavam investindo tempo demais no trabalho. Depois de algumas discussões a respeito, e olhando para o problema, a solução para eles passava por ela abrir mão do emprego. Isto caiu bem para o casal, apesar de pairar uma nuvem de dúvida e uma certa ansiedade sobre a tremenda diminuição do orçamento. A compreensão deles é que o importante neste momento é o filho e não o trabalho dela. Eles, juntamente, em comum acordo, decidiram se adequar à nova situação. Os conflitos entre eles tem diminuído sensivelmente, a ponto de ambos serem agora cooperadores um do outro e não mais opositores um do outro, cada qual defendendo suas próprias posições. Ambos tem aprendido a abrir mão de seus próprios interesses (Fp.2.4). Isto é verdadeiramente amor biblicamente aperfeiçoado. Ela abriu mão de algumas expectativas que tinha quanto ao marido e seu desempenho profissional, e ele abriu mão da sua dúvida mais cruel, e que os mantinha nessa rotina “maluca” que era: “Será que vai dar para chegar no fim do mês”? Ele me disse: “Se Deus está me dizendo pelas Escrituras que eu tenho que ensinar o meu filho no caminho em que ele deve andar, e se eu estou tendo problemas com a disciplina dele e em corrigir as motivações do seu coração, então, eu preciso crer que o Senhor honrará a minha decisão de honrar a Palavra dEle. Eu estou descansando no fato de que o Deus que não pode falhar, irá nos sustentar, enquanto eu treino o meu filho a amá-Lo”. Ele compreendeu bem o que o autor de Hebreus escreveu em Hb.13.5,6 (por favor, abra a sua Bíblia e leia). Você, leitor, nem imagina o que Deus está fazendo com este casal. Ao invés de conflitarem entre si eles agora estão crescendo em amor, e juntos, estão atacando o problema, e se concentrando naquilo que é importante.

Infelizmente, muitos casais tem optado pelo caminho aparentemente mais fácil da separação, entendendo ser muito difícil lidar com os problemas no casamento aliado ao fato de que se sentem incapazes de encontrar soluções para os conflitos. Este é um tremendo engano que tem permeado a mente de muitos casais, que, ao invés de investirem tempo e energia na busca das soluções à luz da Palavra de Deus, que ao invés de se humilharem perante o seu cônjuge e reconhecerem que tem crido de modo egoísta, e argumentado de modo a exigir os seus próprios interesses, preferem um caminho, que aos olhos humanos é mais fácil, porém, tem consequências desastrosas, deixando marcas que não se apagam tão facilmente. Muitas separações, talvez a maioria delas, ocorrem por problemas absolutamente comuns, do cotidiano. Por que então a separação? Porque há muito egoísmo e orgulho de parte a parte.

Um outro princípio que caminha junto com o anterior é este: Descubra e elimine os elementos adicionais que alimentam o problema. Que ações, que reações, que palavras, que atitudes tem contribuído para a permanência do problema? Quando nós eliminamos os complicadores, podemos melhor nos concentrar no problema propriamente dito. Quantas vezes tenho aconselhado pessoas cujos problemas conjugais são relativamente simples, mas, eles tem alimentado o problema principal com tantos complicadores adicionais, que eles se perdem nos complicadores e não conseguem mais se deter no problema. É a maneira de um reagir com o outro, as palavras que diz, como diz, em que altura diz, etc. É aquele “pisar duro” quando entra e quando sai, aquele silêncio que denuncia haver problemas. Estes elementos adicionais prejudicam o lidar com o problema. Sempre pergunte a si mesmo: “A maneira como estou reagindo ao meu marido, à minha esposa, é a maneira como Deus ensina nas Escrituras eu devo mesmo reagir”? “Já que o meu alvo é crescer à semelhança de Jesus (Rm.8.29), como o Senhor reagiria se estivesse em meu lugar”? Muitos casais encontram refrigério para o relacionamento conjugal apenas com medidas simples, isto é, em conformar a sua reação, as suas palavras, o seu olhar, a sua atitude ao padrão das Escrituras.

Uma vez que o casal está concentrado no problema, eliminando os complicadores, buscando sempre a perspectiva de Deus a respeito, o resultado será crescimento em intimidade de um lado e glória para o Senhor de outro. Ambos crescem no conhecimento das implicações do amor bíblico. Ou seja, ambos crescem na compreensão do que significa o amor “ser paciente” (I Co.13.4), do que significa o amor “não procurar os seus próprios interesses” (I Co.13.5), do que significa o amor “não se ressentir do mal” (I Co.13.5), do que significa o amor “não se conduzir inconvenientemente” (I Co.13.5), do que significa o amor que se expressa em “mansidão” (Ef.4.2), do que significa o amor que se exercita continuamente na arte de perdoar o seu cônjuge amado (Ef.4.32-5.2), do que significa o amor que busca sempre o maior bem do cônjuge, mesmo em meio às tensões e divergências. Estas qualidades por um lado aperfeiçoam o casal no exercício do amor bíblico, do amor doador, do amor cooperador, e de outro, comunicam glória ao Senhor.

É assim que se enfrenta uma “boa briga” dentro do casamento. Quando abrimos mão de exigir o nosso direito, de exigir que prevaleça a nossa perspectiva, a nossa interpretação, e, buscamos compreender qual a perspectiva de Deus através das Escrituras, e a preferimos e a implementamos em nossa vida pessoal e no casamento, nos assemelhamos à imagem do nosso Senhor Jesus, crescemos com os conflitos e tornamos o nosso relacionamento conjugal mais aperfeiçoado e mais amadurecido.

Eu quero terminar citando uma palavra de Jesus aos seus discípulos: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” (Mt.5.16). Me permita fazer um acréscimo não inspirado aqui, aplicando o texto ao casamento: “....para que vejam as vossas boas obras, isto é, o vosso relacionamento conjugal sendo conduzido pelas Escrituras, a maneira bíblica como vocês resolvem os seus conflitos e manifestam amor um pelo outro, assim como as expressões mútuas de perdão e mansidão, e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus”. Um casal que assim se conduz, brilha e glorifica ao Senhor. Espero sinceramente que este texto reflita também o seu relacionamento conjugal e o seu lar.

Pr. Jayro M. Cáceres
Autor
Pr. Jayro M. Cáceres
Pastor Jayro Malmegrin Cáceres, é casado com Ivanice e tem três filhos: Miriã, Davi e Daniel. É Bacharel em Teologia e Mestre em Aconselhamento Bíblico pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida.

Jayro se converteu no começo dos anos 70 na própria Igreja e anos mais tarde foi ordenado ao ministério pastoral pela igreja, onde exerce o pastorado por mais de vinte anos.

Ele é também coordenador do ministério de Aconselhamento Bíblico - NUTRA, professor externo do Seminário Bíblico Palavra da Vida e palestrante em diversos seminários e igrejas pelo Brasil afora.
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